Confio


Dos jornalistas que se aventuram na literatura exige-se que levem uma vida dupla,
isto é, que usem duas canetas,
uma para os romances, contos e poemas,
outra para as notícias e reportagens."

José de Broucker - jornalista francês


Confio um brinde a simplicidade!
Para que seja sempre
a melhor atitude de sofisticação.


domingo, 21 de março de 2010

Pergunte ao Pó


Depois de muito tempo eu o encontrei.
No dedo uma aliança dourada. No rosto aquele sorriso fascinante que embalava a minha fome sempre antes da sua chegada. Nos olhos?
Nos olhos não sei! Não conseguia descrever, nem decifrar e muito menos fixar
aquele negro olhar.
Acabei por encontrá-lo numa dessas esquinas da vida. E eu não acreditava.
Mal queria acreditar!
Fui movida pela sensação da entrada forte do inverno e do intenso calor do verão. Minha mão esquerda sentia que ele me olhava com indiferença. A sua mão direita segurava delicadamente um cristal que precisa do máximo de cuidado e proteção – segurava uma menina.
Uma linda menina.
Observei a criança com lágrimas frágeis que acabaram desbotando o lápis dos meus olhos, e rolavam sobre a minha face ao encontro da minha roupa. A menina me olhou como se tivesse tomado conhecimento da minha personalidade; como se soubesse das minhas manias e que eu não vivia sem pintar minhas unhas.
[Ele gostava de esmaltes claros! Minhas unhas estavam vermelhas]
Ela me olhou com história. Eu olhei aquela criança, que imitava a cor dos meus cabelos,
como se fosse parte de mim também.
Parecia ser minha!
O tempo girava, o trânsito parado, e o vento que batia nas árvores fez com que eu lembrasse uma manhã em que sentamos [ele e eu] na calçada da minha casa, para olhar os pássaros que subiam e desciam num voo incansável e invejoso. Lembro daquela mão que me segurava. Lembro do sentido que ela me dava. A mão que alimentava cada palavra de amor,
completa ou só.. [A mão que também segurava o pó].
Ao meu lado ele sempre foi mentiras sinceras... Longe de mim era velocidade, negação.
O vento que recordou aquele passado feliz, me trouxe a cor dos cabelos dele. Quanta saudade!

As veias do braço que ainda se faziam notar. A minha vontade e os traços que o mofo dos anos não conseguia apagar, Que eu não consegui limpar!
Sentia a força que ele tinha toda vez que amassava, com o toque das minhas mãos, as pontas dos seus cabelos. Eu comeria o cabelo dele se fosse preciso.

E tomei todas as dores quanto tudo virou guerra.

A filha se desprendeu da mão do pai e foi buscar o passarinho que pulava na calçada da rua.
O silêncio dele era a música popular brasileira que eu sentia dentro do meu corpo.
Olhou nos meus olhos e desviou rapidamente. Apesar do tempo, da raiva e da história, a guerra era ainda forte.
Inútil!
Não era paz e nem abandono. Não foi tão óbvio, mas foram outros tempos.

Pergunte ao pó.
[autoria: Afani Baruffi]

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