Confio


Dos jornalistas que se aventuram na literatura exige-se que levem uma vida dupla,
isto é, que usem duas canetas,
uma para os romances, contos e poemas,
outra para as notícias e reportagens."

José de Broucker - jornalista francês


Confio um brinde a simplicidade!
Para que seja sempre
a melhor atitude de sofisticação.


quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Sinto que nasci...

Acordei, meio sem jeito! Afinal, não são mais os esperados 15
e sei que pra 80 sobram muitos anos ainda...
No entanto, levantei com uma beleza faminta,
numa manhã que o chegar da tarde, hora ou outra, a noite finda.
Apesar do despertar acanhado, caminhei com gosto,
gosto e sabor... como cardápio de mesa em cena de cinema.
Sensação de fruta amadurecendo... presa entre galhos de árvore
Sentido de sol forte alcançando um canto de varanda
Amplitude de tinta azul do céu, que risca, desenha, faz arte
Manda e desmanda.
Caminhei fora de mim, dentro de mim, nas expressões da minha infância...
[ duas décadas de grama verde, de água no riacho correndo livre, de casinha no pé de pêssego, de castelo de areia, de primos invadindo a casa, de vento embaixo da janela, de cachorros e gatos soltos, de terra vermelha, de pés empoeirados, de água limpa para lavar as mãos, de banho de chuva no quintal, banho de lua na calçada, banho de pai e mãe, banho de amor!]
Ah! Há! Amor!
no que ficou, no que me edificou!
E qual tempo que me espera? E o que esperamos do passar do tempo!?
Estão sendo tantos os abraços, tantos os e-mails, tantas as mensagens e ligações...
[carta, cartão]
[ações significativas e simples, e simples e muito simples... e que arrancam do lado mais forte da gente, lágrimas puras, sinceras, suaves.]
E quantos anos ainda poderemos comemorar?! Seja por meio virtual, seja na presença ou em intuição! Por quanto tempo e por quem viveremos? Por quanto tempo e quem por nós viverá?
[ o destino... os sonhos que temos, penso,
e o contorno cada um dará!]
Não pedi luxo, nem confetes, nem grandes publicações.
Pedi por minha família e tendo-a, hoje, com todo o gesto e jeito senti que nasci,
Nasci para viver!
Para trabalhar incansavelmente, para vencer os dias de dor, para ter amor,
para alegrar uma mesa com amigos...
Senti que há 22 anos atrás vim parar nesse mundo
[e um mundo de coisas veio parar em mim].
Algumas lembranças caducaram. Outras estremecem e causam febre ao corpo. Assinei com a tinta azul dos poetas, tinta azul marcante, silenciosa para escrever, um dia a mais e/ou dia a menos, enfim.
No meu dia, não peço mais!
Agradeço! Por todos aqueles que enchem meu tempo de significado
Que colocam seus dedos no meu coração.
Sinto que nasci ...
e há tanto pra nascer ainda...

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Sérgio Moraes Sampaio, compositor carioca

tudo cruel
tudo sistema
torre babel
falso dilema
é uma dor que não esconde seu papel [..]

o amor tá quase mudo
minha voz também
cruel é isso tudo


o amor tá quase mudo...

M. Quintana, Caderno H

"Havia antes, por exemplo, os cafés sentados, fumados, conversados onde a gente arrasava o mundo, mas renovava o sonho, o ideário, a vida.

Agora, só existem esses cafés de barranco por onde se passa às pressas e indigninamente como numa fila de desaguadouro público. Por isso é que a geração de hoje parece tão no ar. Não tem tempo de sentar. Para bem as sentar as idéias é preciso primeiro sentar-se"

O dono de Capitu


terça-feira, 26 de outubro de 2010

Os bastidores

Melhor resolução, aqui: http://www.youtube.com/watch?v=gHAes9yUjns

O "poetinha", Vinicius de Moraes

Porque a poesia foi para mim uma mulher cruel em cujos braços me abandonei sem remissão, sem sequer pedir perdão a todas as mulheres que por ela abandonei.
E assim como sei que toda a minha vida foi uma luta para que ninguém tivesse mais que lutar: Assim é o canto que te quero cantar, [...]

Reportagem - Células Tronco

Visite o site e confira a nossa programação: www.upf.br/tv

sábado, 16 de outubro de 2010

Caio F. Abreu

Quem consola aquela prostituta? Quem me consola? Quem consola você, que me lê agora e talvez sinta coisas semelhantes? Quem consola este país tristíssimo? Vim pra casa humilde. Depois, um amigo me chamou para ajudá-lo a cuidar da dor dele. Guardei a minha no bolso. E fui. Não por nobreza: cuidar dele faria com que eu me esquecesse de mim. E fez. Quando gemeu "dói tanto", contei da moça vadia chorando, bebendo e fumando (como num bolero). E quando ele perguntou "porquê?", compreendi ainda mais. Falei: "Porque é daí que nascem as canções". E senti um amor imenso. Por tudo, sem pedir nada de volta. Não-ter pode ser bonito, descobri. Mas pergunto inseguro, assustado: a que será que se destina?

A(r)

risca

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Outubro

Pense, não...
que sou assim de fino trato pra selar esse contrato,
pois não sou perfeita, apesar de eleita e mostrar-me bem segura
minha luz é passageira... fico sempre por um triz..
[lua, nuvem, brisa, parede, giz]

me fará feliz!

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

"Olhos de Ressaca"

Quadro de Auguste Renoir

Tinha-me lembrado a definição que José Dias dera deles, “olhos de cigana oblíqua e dissimulada.” Eu não sabia o que era obliqua, mas dissimulada sabia, e queria ver se podiam chamar assim. Capitu deixou-se fitar e examinar. Só me perguntava o que era, se nunca os vira, eu nada achei extraordinário; a cor e a doçura eram minhas conhecidas. A demora da contemplação creio que lhe deu outra idéia do meu intento; imaginou que era um pretexto para mirá-los mais de perto, com os meus olhos longos, constantes, enfiados neles, e a isto atribuo que entrassem a ficar crescidos, crescidos e sombrios, com tal expressão que…
Retórica dos namorados, dá-me uma comparação exata e poética para dizer o que foram aqueles olhos de Capitu. Não me acode imagem capaz de dizer, sem quebra da dignidade do estilo, o que eles foram e me fizeram. Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá idéia daquela feição nova. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca. Para não ser arrastado, agarrei-me às outras partes vizinhas, às orelhas, aos braços, aos cabelos espalhados pelos ombros, mas tão depressa buscava as pupilas, a onda que saía delas vinha crescendo, cava e escura, ameaçando envolver-me, puxar-me e tragar-me. Quantos minutos gastamos naquele jogo? Só os relógios do céu terão marcado esse tempo infinito e breve. A eternidade tem as suas pêndulas; nem por não acabar nunca deixa de querer saber a duração das felicidades e dos suplícios. Há de dobrar o gozo aos bem-aventurados do céu conhecer a soma dos tormentos que já terão padecido no inferno os seus inimigos; assim também a quantidade das delícias que terão gozado no céu os seus desafetos aumentará as dores aos condenados do inferno. Este outro suplício escapou ao divino Dante; mas eu não estou aqui para emendar poetas. Estou para contar que, ao cabo de um tempo não marcado, agarrei-me definitivamente aos cabelos de Capitu, mas então com as mãos, e disse-lhe,–para dizer alguma cousa,–que era capaz de os pentear, se quisesse.

Machado de Assis in “Dom Casmurro”
"Não quero medir a altura do tombo, nem passar agosto esperando setembro."
Z.B.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Alma Menina

O suco contornava a superfície interna de um copo de vidro e se espalhava antes de receber a boca e a sede. A polpa movimentava o açucar, expandia-se dentro da própria limitação.
Imitando o líquido, fazia-se o ambiente, inquieto e adoçado: pessoas riam, falavam alt0, executavam seus pedidos. Alguns se concentravam para reuniões, poucos para apreciar o cardápio. A decoração era rústica, as luzes vivas e as cores eram quentes. No entanto, a informação veio como água fria, enquanto, lá fora, a chuva decorria...

- Casou?!

[suspirei e derramei]

O líquido saiu do copo e foi se acalmar na textura da mesa. Os olhos percorreram meu informante e os arredores, infiltraram-se na corrente sanguínea e por pouco senti que iria transbordar da mesma forma que acabara de fazer com a bebida do copo. Solicitei um guardanapo para limpar a mesa molhada e desejei uma toalha de banho para me secar, por dentro.

Engoli o momento com pouca apetite e acredito que a cor do olhar foi procurar a retina em algum trabalho de arte fixado na parede. Pensei em cegueira, mas queria [de verdade] retroceder para bloquear a audição. A boca tremia, a língua enrolava palavras, as pernas enfraqueciam, a energia se diluía e o ar dosava. O aroma cítrico do perfume se confundiu, a notícia trouxe ao corpo hipotermia.

Um simples verbo conjugado ca(u)sou sensação de nudez... Tentei me cobrir com distância. Amortecer o disparo... mas me veio outra lança...

- Tem uma criança! Dois anos de idade.

Perdi o ritmo, sangrei ódio com acessos de contínuos arrepios. Precisei de atendimento.
Cheguei a pensar que tudo era inconsciência de um sonho. Senti o corpo doer, a feminilidade adormecer, profunda...
Se arrependimento,
matasse...
[matou]
uma alma, menina.
Com traços de confiança... ficou
(a) Mulher
Não se deixe viver apenas o que é possível ! Que lhe seja permitido desaprender limites.