Confio


Dos jornalistas que se aventuram na literatura exige-se que levem uma vida dupla,
isto é, que usem duas canetas,
uma para os romances, contos e poemas,
outra para as notícias e reportagens."

José de Broucker - jornalista francês


Confio um brinde a simplicidade!
Para que seja sempre
a melhor atitude de sofisticação.


domingo, 4 de julho de 2010

Mudanças de estado

Eu naturalmente sólida. Em dia aquecido, um corpo em sublimação.
Sentia minha mudança de estado insistindo no desnecessário. Peguei o primeiro vento que entrara ao encontrar a abertura da janela, só para ouvir o meu suspiro.
Respiro, teor de substância vaporizada.
[Todo o dia é exaustivamente igual. Condenso beleza e energia a rotina. Mas, ingrata ela me erotiza e depois me faz sentir nojo... feito cheiro de incenso. Acaba me desfazendo e me apaga quando, finalmente, acendo].
Hidrodinâmica vou ao bar. Encontro aquele alguém e me despeço em porém. O mundo a minha volta, conhecidos uns, amiga e amigos, não-conhecidos que nem questão faço; ligação no meu celular, mensagem linda, texto assinando saudade...
Solidifico e decido: quero ninguém. Volto à casa, salto alto, maquiagem, perfume vestindo vestido. Vou ao Moinho me sentindo o próprio - girando no olhar e na percepção do desconhecido. Mas, o vento é forte e o giro é rápido, logo, fervo de risos, garganta doendo, peço líquido. Quebro meu gelo, derreto de fora pra dentro, fusão cristalina.
Fico deslumbrando meu descongelamento, proposta de fuga, minhas mudanças de estado. Fuga essa que me leva as mesmas edificações da cidade, faz-me caminhar o mesmo caminho, cheirar a mesma poeira das ruas, esquinas e avenidas. Esbarrar nas repetidas conversas, nas cantadinhas engraçadas, nos homens de mesmo perfil. Mudança de estado que, na prática, não me reconhece em outra cultura. Pintura abstrata, ausência de humor na gravura, assinatura ilegível, uma indigente da tecnologia. Barbaridade, tchê!
Na física, o ambiente modifica a matéria. Pensei em me ionizar, tomar da coragem engarrafada, quem sabe tentar ser mais feliz. Quem dera... quanto mais eu pedia distância, no estado personificado, a fútil aproximação. Meu desejo não sabia mais distinguir o que era importante, então preservava tudo. Tentei trocar de fase,
Evaporar dali!
Isqueiro, fogo, cigarros se acenderam do meu lado..
Borbulhei nos líquidos. Nesse momento não prestei mais atenção em mim!
Era tarde, a noite ja tinha passado,
Ficou branca a visão
A madrugada chegava para aquecer o dia. Nova mudança de estado,
Ebulição.

2 comentários:

  1. Texto denso e poético, lindo! Gostaria de saber dizer-me assim...

    ResponderExcluir
  2. Afani, tem um estado físico da água quando ela passa, instantaneamente do sólido para o vapor ou vice e versa que se chama sublimação.Diria eu que sua poesia é semelhante,como que "SUBLIME"...Sucesso...bjs.

    ResponderExcluir