Confio


Dos jornalistas que se aventuram na literatura exige-se que levem uma vida dupla,
isto é, que usem duas canetas,
uma para os romances, contos e poemas,
outra para as notícias e reportagens."

José de Broucker - jornalista francês


Confio um brinde a simplicidade!
Para que seja sempre
a melhor atitude de sofisticação.


quarta-feira, 9 de junho de 2010

Misturas

Ele sempre exercia duas vidas ao mesmo tempo. Uma aqui, mas na outra ela não entrava. Com lágrimas nos olhos dizia que a amava mais do que qualquer coisa. Porém, ela não sabia ao certo... e dia após dia era ainda mais difícil entender sua doente letra.
O amor deles foi uma casinha na árvore. Pulavam os mais deliciosos frutos para roubar os mais diferentes muros. Assim como as antigas fotos a mistura dos dois era uma locução sincera. O som dele era um barulho de chuva. O cheiro dela era aroma de madeira.
À noite bebiam todo o escuro por engano. Ela sempre pedia para dormirem de pés dados e ele nunca reclamara. Ele gostava mesmo era de sentir o batimento dos dedos colados. Dizia que parecia toques de violão.
Mas ele amava vícios e outras armas. Já ela amava livros e comia ficções sem a mesa preparada. Ele era o vinho no inverno e ela jamais beijava sem morder. Ambos tinham uma feroz raça e nos dentes uma doce malícia. Ele sempre pedia a ela que parasse de escrever e dedicasse maior atenção. Ela era o texto que ele não conseguia decorar. Ela era artigos da Constituição.
Nunca apreciou cigarros. Porém ele...Os consumia. Na ausência, a fumaça de um diminuía a solidão dela.
...
Passou-se um tempo e o relógio escorreu ponteiros ...de horas ruins!
...
Ela passou a dormir menos tranquila e ele passou a acordar sem dormir. A teimosia dele que a princípio, ela sempre achara que fosse charme e um toque de ousadia, causou nela vertigem de ira e provocação.
O casamento virou uma casa destelhada. Fidelidade? As escovas de dentes não tinham a mesma aproximação. No entanto, ele se desculpava para fazer de novo. Segundo um ditado, o excesso de doçura também apodrece os frutos,
E ela foi adquirindo maldades alheias.
A perda foi o sangue que ela ofereceu para ele beber sem taça.

Até hoje me culpo por nada ter feito naqueles momentos. E até hoje ele chora pedindo o canto vazio da cama dela.
“Penso ter vivido o que escrevi e deixo de viver o que está escrito” [Fabrício Carpinejar].
As cartas de amor que ganhei... hoje adormecem sobre a minha camisola, embaixo de um colorido travesseiro. Foram escritas com uma pena, selados com uma língua e rasgadas com algumas bocas de poemas.

Acordo! Seguro o café e aos poucos vou bebendo a xícara.
Nessa mistura, [eu sei].. Jamais terei paz no corpo dele!

Um comentário:

  1. Áfan...que delícia matar as saudades bebendo das tuas palavras.
    Lindo texto...

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